Deambulações sobre dias que não vivi, e uma reflexão sobre alienação.
Prólogo #
Comecei a escrever este artigo, antes do que o precede, Ecce Homo, um artigo autobiográfico. Este conta a história de uma das minhas referências, cujo título ironiza a obra homónima de Nietzsche, que é uma antítese deste. Ou seja, o que escrevi é uma apologia ao heroísmo da moralidade cristã, e sobre um caminho que não só rejeita categoricamente o niilismo, como o materialismo.
Para juntar à absurdez, do meu propósito original, a minha audiência principal ficou a ver navios, e a pensar que escrevia sobre homossexualidade. Basicamente, não o leram ou não o que quiseram ler, ou estão demasiado consumidos com o que raio os consome nos dias que correm. A verdade ou mentira sobre o lerem, desconheço. No entanto, não o leram como devido, e esperado. Falhei como emissor.
Consequentemente, um homem tem de ser lúcido e aceitar quando está errado. Estes primeiros parágrafos são essencialmente isso, uma confissão. Expectativas que não foram cumpridas, e desilusões como quaisquer outras. Devia esperar pouco da cidade do homem, ou assim me diz o bom santo, e grande pecador.
Agora lembrei me que tenho mesmo de ler propriamente a Cidade de Deus, do meu grande santo pecador favorito.
Regressando ao que por aqui estava a meditar, no fim de semana passado.
Memórias de um tempo perdido #
Midnight in Paris, do Woody Allen, foi marcante no inicio da minha vida adulta. O protagonista encontrasse de férias em Paris, numa situação um tanto surreal, que deixa explícita a sua alienação da realidade. Procura uma solução para o seu problema insolúvel, e apenas o percebe após as suas viagens acidentais pelos anos 20, década do seu sonho, e à Belle Époque. Nesse seu retorno a casa encontra a sua catarse, e o seu caminho.
O que é que encontra de facto? Algo perdido ou por descobrir por todos. No meio deste absurdo, encontra lucidez, e dessa lucidez encontra o que havia perdido, que é perspectiva. Nos dias que correm, as pessoas parecem esquecer-se que enquanto se vive um dado período existe falta de perspectiva.
Uma intromissão #
Enquanto escrevo isto, lembro me de um bom amigo que contava uma história sua com o Professor José Hermano Saraiva, que aquando lhe ter perguntado sobre o 25 de Abril, o bom professor apenas disse que teriam de vir ainda duas ou três gerações para poder ter uma percepção real do sucedido, sem juízos de valor. Tradução, acreditava como um bom historiador que a história deve ser avaliada pelo que é, e não sob lentes ideológicas.
Eu acredito que o bom professor tinha demasiada fé na capacidade do ser humano, e nos tempos que seguiram essa época. Talvez umas nove ou dez, como observo as pessoas a discutir o tema. Adultos agindo como crianças, o discutem como se fossem clubes de futebol, afirmando a ausência e ignorando o seu preconceito e a propaganda que os permeia.
Se calhar, e provavelmente, sou eu que estou errado.
Retorno ao que escrevia #
De volta ao filme, sinto falta dessa lucidez e consciência da necessidade de perspectiva. Acho que nunca a encontrei nos dias que correm, e talvez apenas em histórias em segunda mão. O que me faz pensar sobre percepção da realidade. Como percepcionamos o tempo? Será que existe vários tipos, será que manifestamos apenas o que nos interessa? A pergunta que sucede forçosamente, é se as pessoas esquecem que é a primeira vez que vivemos? Que somos todos capazes e propensos a erros? Será que pensaram nisso e se esqueceram, ou nunca o pensaram, ou rejeitam essa hipótese?
Não sinto falta dos loucos anos 20 em Paris, mas fantasio por vezes com os dias da juventude do meu avô paterno, nos anos 30, e 40. Gostava de o ter conhecido quando era jovem, e não velho, cansado, no anoitecer da sua vida. Sinto ainda hoje saudades suas, e desses tempos que viveu. Porquê? Quer me parecer que eram surreais, no sentido de super realidade, uma realidade mais real do que a que vivemos, menos imersa de tão sofisticada propaganda. Esta realidade tão virtual, no qual cada um pinta qual Ministério da Verdade Orwelliano, uma realidade que nunca existiu e que racionaliza toda a bestialidade e futilidade que acometemos contra o próximo.
Por outro lado, talvez seja por outras razões, que sinto saudades. O protagonista do filme enfrenta outro ponto interessante, que advém do nosso desejo inato de certeza. Se eu soubesse o futuro que me é destinado, existe uma certa medida de paz que qual bálsamo, acalma o espírito. Para mim, no entanto, a certeza nunca foi grande fonte de conforto ou como objectivo de vida.
Existe no entanto o caminho a percorrer, e qual peregrino apenas sigo a estrada.
Conclusão #
Esta falta de perspectiva, esta incerteza e informação incompleta, é uma bênção e maldição da condição humana. É uma razão fundamental para a vida valer a pena ser vivida, mas também uma fonte sem fim de sofrimento e todo o espectro de emoções, sentimentos e de tudo o que nos faz humanos.
Penso também muitas vezes na minha bisavó, mãe do meu avô paterno, a quem o meu pai era muito dedicado, que viveu quase toda a extensão do século XX até aos anos 80. Viveu numa era conturbada, quando ideais pareciam ser mais do que desculpas para atrocidades. Viu o Reino, a República da desilusão, a ditadura, o Estado Novo, e ainda o pós 25 de Abril. Viu os aviões a aparecerem, o rádio, a Bomba, a televisão, o Homem chegar à Lua, os computadores e a ponte sobre o Tejo.
Ao que o meu pai me diz, terá feito notar que fizeram a ponte sobre o Tejo, com o suporte para um comboio, um certo fascínio sobre o engenho o humano. Transcrevo e simplifico claro, porque a memória me falha.
Penso neste positivismo já anacrónico, porque sofreu um abalo por um icebergue, que deveríamos voltar a sentir em doses moderadas. Voltar a ver o mundo , como uma criança, aceitando tudo o que ele nos pode dar, tropeçando pelo caminho.
O Caminho para fazer cumprir é um passo de cada vez.