Ecce Homo

Thoughts on questions made by a youth, who I’m happy to call my kin. Written in Portuguese.

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Thoughts on questions made by a youth, who I’m happy to call my kin. Written in Portuguese.


Para ti, que precisas de saber quem és.

Faz uns dias, que estive num evento de família, e repetindo o que aconteceu uns meses antes, este jovem veio falar comigo. Felizmente, sobre algo não trivial, que são os tremores que sentimos aquando a procura de quem somos. Quem nunca passou por isso, raramente pode-se dizer que saiu da infância, e fico feliz que esteja a passar por isso. Raramente discutido nos dias de hoje, já sabido em tempos antigos, para fazer nascer o Homem, há que matar a criança.

Manterei sempre a saudade da amorosa criança que sempre foi, da sua inocência, caridade e piedade. Não duvido que dado o seu feitio, há de manter a sua disposição com compaixão pelos que sofrem e preocupação pelos seus próximos. Hoje em dia, é raro e é necessário nutrir esses sentimentos, para que não se extinga a humanidade, neste mundo que parece cada vez mais focado em Mammon.

Falamos de muita coisa, mas o fascínio derivou de toda a história familiar que desconhecia. Considero me bafejado pela graça de Deus, como qualquer um, mas particularmente abençoado por ter nascido Português, e com tão distinta gente que chamar de família, com todos os seus defeitos e feitios.

Em caso particular, falamos do meu bisavô, um homem distinto, pela sua rectidão moral e ética. No reverso, o seu temperamento e cultura transmontana parece ser uma herança pesada. Esta vê-se manifestada no feitio danado e complicado largamente identificado como fenótipo nos homens da família.

É sobre esse Homem que vou escrever nestas linhas, porque das suas lendas, nasce um herói trágico pelos vultos que o assombraram, e sobre o qual poderia escrever livros, de várias perspectivas. Não são todos os homens que se capitaliza o H, mas este conquistou esse direito, que não atribuo a todos, nem ninguém pode atribuir. Hoje, parece que ainda menos.

Retornando ao nosso herói, parece que o sangue quente aqui é herdado. Convém-me lembrar a este jovem, ao contrário de alegações de César sobre o divino, ou dos Plantagenet do demo, eu estou certo que ambos somos descendentes de Carlos Augusto de Moraes Machado. Um epitome de um homem que não comprometia a sua ética por nada, gerando máximas interessantes na família, como:

Com a honra não se brinca, morresse.

Deus sabe, e os meus amigos próximos sabem, como estas palavras que por vezes faço minhas, já me meteram em sarilhos. Relembro, o meu último torneio em Trás-os-Montes, especificamente em Mirandela, quando um jovem de Coimbra ousou acusar-me de batota, por ter estragado um jogo em que me estava a destruir. Não foi a vitória que quis, mas foi a que se fez, sem nunca desistir. Aquando a acusação, com esse mesmo sangue quente, ia mesmo para lhe “F…. as mantas”, como dizem os meus bons amigos da terra da sua origem, Macedo de Cavaleiros.

Voltando a este homem, e a uma viagem para o encontrar.

O ano era dois mil e sete, e o meu pai, homem da mesma fibra, decidiu ir procurar sobre o sítio onde o seu pai e avô viveram. Temi muito por ele, lembro me como se fosse ontem. Enxergando preocupações, quase oiço, na sua despedida, o eco do testamento do meu quarto avô: “Temendo a morte, mas esperando a como um bom cristão, …”. Cauteloso, prudente e sem mariquice, foi o meu pai na sua aventura de redescoberta do passado, pelo que lhe estou eternamente grato.

Na Guiné Bissau, encontrou memória viva. Um homem lembrava se do Machado e Machado filho. Descobriu uma alcunha que o Machado pai tinha. Quase meio século depois da sua morte, ainda contavam histórias deste homem, sem o sabermos. A sua alcunha era “o Petebe”(uma adaptação de Peto bravo, touro bravo, ou do bijagó Dugn’be que é a máscara de touro representando masculinidade, utilizada nos rituais iniciáticos à vida adulta).

A razão de ser? Simples, era um homem de moderados costumes que tinha uma intolerância para o que via ser injusto, incorrecto, ou simplesmente desrespeitoso, que invariavelmente degenerava em violência. Contou in situ, de ter visto com os seus olhos, um desses episódios. Estando o Machado sentado e calmo, veio um homem pouco cavalheiro ofendê-lo, pelo que o Machado procedeu a rectificar as feições deste senhor até o senhor cair uns metros atrás sobre a bancada da peixeira.

Esta história no entanto não deve glorificar a violência, mas antes aprender o que parece ter sido de facto a qualidade deste homem. Zero tolerância para gente amoral, ou que ultrapasse os limites do respeito. É importante lembrar de como chegou à Guiné.

Filho mais novo de seis, com pouco ou nada para herdar, excepto a educação que lhe foi garantida, viu-se envolvido na Monarquia do Norte. Uns gloriosos vinte e cinco dias, nos quais um grupo rebelde tentou abolir a indiferente primeira República e fazer regressar o seu rei. Nessa breve aventura, especulo que visto a nada o prender a Portugal Continental, excepto perseguição política, vê-se a caminho da Guiné para tentar construir a sua vida.

Pela sua indústria, consegue atingir um certo nível de comodidade, casa e tem um filho. Anos mais tarde vê os negócios que gerou serem afectados por legislação discriminatória anti álcool(27552-1937-418205), viu tudo a regredir. Nunca satisfeito com as suas condições tentou sempre arranjar condições para a sua família.

É neste ponto que relembro o jovem, que não é tradição o comodismo na família. Não é por ambição material, mas para garantir que conseguimos dar oportunidades à nossa prole e descendência, que trabalhamos. Não só para dignificação do contributo para a sociedade, porque o emprego nada dignifica, mas o contributo o faz. O meu bisavô, nem o seu filho, nem os seus descendentes devém-se acomodar e aceitar as cartas que a vida lhes dá.

Nessa mesma festa, o meu tio/padrinho contou me uma história que desconhecia. Sumariamente, aquando o conhecimento da prática de mutilação genital feminina perto da sua casa, o Petebe partiu a cavalo com um revólver para o impedir. Hoje em dia, reflectindo bem aparenta ser suicida. Um homem contra dezenas não parece ter hipótese, mas depois lembro que é português, e para um português como tantas vezes na história, a inferioridade numérica é o normal.

Preciso de pedir ao meu tio que meta caneta ao papel sobre isto. O ponto de o mencionar não é a questão de se meter questões alheias, é que para si, o relativismo moral era uma heresia, e tendo eu as minhas tendências kantianas, tendo a concordar. Nesta história, que eu desconhecia, encontrei também algum conforto no meu desconforto com o relativismo moral praticado pela nossa sociedade. Aparentemente não estou só, nem preciso de estar ou sentir-me orgulhosamente só.

Concluindo, há muitas histórias que poderia contar sobre Carlos Augusto de Moraes Machado, como do seu filho, descendentes e alguns ascendentes. Aquando a procura por nos conhecermos, há que perceber a nossa cultura, donde vimos e para onde queremos ir. Estar parado ou cómodo não é caminho, nunca foi. Portugal e a maior parte da juventude parece o ter esquecido, e outros fantasiam e culpam por isso essa juventude, mas as pessoas têm de se lembrar, que nem todos temos as mesmas oportunidades.

Termino mesmo, que usar esta lenda como exemplo, é um bom caminho, porque a educação hoje em dia nunca foi tão acessível. Basta ignorar a propaganda das redes sociais e livros modernos controlados, e procurar livros onde era menos acentuada. Neste caso, tentar perceber pontos opostos para sintetizar onde provavelmente encontra se a verdade.

Encontrando a tua verdade, caminharás para o que é seres tu. Espero eu, um homem moral e recto como o teu ascendente, mas um pouco menos violento e volátil.